Política

Acampamento de ideias

Henrique Kanitz-0004

Quem desce a rua Mostardeiro, em Porto Alegre, percebe, onde ela se encontra com a avenida Goethe, um acampamento pouco convencional. Idealizado pelo movimento de La Banda Loka Liberal, o espaço passou a abrigar também o Movimento Brasil Livre (MLB), o Vem pra Rua e o Patriotas de Plantão. Eles ocupam um pedaço do Parque Moinhos de Vento,  o Parcão, com um propósito em comum: pedir a saída da presidente Dilma do poder. A forma diverge, mas o objetivo é claro para todos.

Por ali passam, param e conversam pessoas interessadas no assunto, sem ligação direta com os movimentos.  Em meio a barracas, estão faixas com dizeres de cunho liberal, além de pixulecos pendurados nas árvores.

Inspirados na praça Maidan, na Ucrânia, que foi ocupada com o objetivo de derrubar o governo local em 2014, os membros da Banda Loka estão acampados desde a última quinta feira (17/03). Dali partem ações coordenadas contra o governo federal, mais especificamente contra o PT. Manifestações como a que aconteceu em frente ao apartamento do Ministro do STF Teori Zavascki ou na PUC/RS, na quarta-feira, 23 de abril, começaram ali.

 

 Manifestações demonstram o  rompimento do “monopólio esquerdista sobre os movimentos populares”

Ricardo Gomes, 35 anos, tem o respeito de muitos dos acampados. De fala bem articulada e voz clara, ele diz ser um grande entusiasta do movimento, apoiando todos os grupos e nenhum ao mesmo tempo. Para ele, as recentes manifestações demonstram o  rompimento do “monopólio esquerdista sobre os movimentos populares”, algo inédito no Brasil. “A essência da democracia é a pluralidade. E é isso que estamos fazendo agora. Sempre teve gente que pensava assim, mas estávamos dispersos.”

Henrique Kanitz-0042 Para ele, o Brasil enfrenta uma crise moral, política e econômica, motivos que o fazem afirmar que o atual governo já teria acabado. O que atrapalha o processo é a carência de líderes. Ricardo não vê a mínima vantagem em Aécio, comumente ligado aos movimentos anti-governo. A busca de um “messias” é, segundo ele, algo tipicamente latino americano, quando alguém vem de cima e resolve o problema de todos. Na prática, isso não acontece. O candidato do povo deve vir do povo.

 Ricardo pondera que essa é a melhor hora para repensar o Brasil. A pluralidade que o surgimento da direita dá ao espectro político torna o momento especial. É preciso cuidado para não cair em uma ditadura de qualquer dos lados. “Uma ferradura tem os extremos mais perto um do outro do que do centro. Assim é a política. As ditaduras são muito parecidas”. Ricardo vê as movimentações do governo parecidas com o que aconteceu em 1964, quando se instaurou o golpe militar. Para ele, as articulações que o governo faz é no campo da retórica, para construir uma imagem de injustiçado que na verdade não é. “Tudo que um esquerdista mais quer é que alguém com a camiseta do PT tome um tiro de um militar. Assim eles teriam um símbolo, um mártir. Eles já veem a derrota, mas se preparam para contar a sua história no futuro”.

Afirma, ainda, que o grande desafio depois da derrubada do governo é mostrar que o PT não foi ruim só porque roubou. Mas porque as políticas públicas, a economia, o propósito bolivariano, o aparelhamento das instituições, as relações internacionais, tudo foi desastroso. E essa é uma briga difícil de se comprar.

Primeiro se derruba a árvore. Depois se pensa em como beneficiá-la

Outra figura sempre presente na praça e nas manifestações orquestradas pela Banda Loka Liberal é Jorge Colares, 57 anos. Ele afirma que se dedica ao futuro do país, que teve sua economia “destruída pelos governos petistas”. Tal posição, assegura, Colares, não isenta os outros partidos. Também diz pensar no futuro de sua neta, de um ano e meio de idade.

No acampamento, não se notam bandeiras de apoio partidário ou mesmo de algum político específico. “O Marcel (Van Hattem, deputado estadual pelo PP/RS) chega perto, mas nem entra. Ninguém quer político aqui”, diz Jorge, sorrindo orgulhoso ao tocar no assunto. Ainda segundo o manifestante, o acampamento é amparado pela Brigada Militar, que faz rondas sucessivas pelo parque,  sendo sempre solícitos com os manifestantes.

Ainda assim, há contratempos. Colares diz ter sido difícil ficar ali durante a chuva desta semana: “Um de nossos propósitos é, quando sairmos daqui, deixarmos algo melhor do que encontramos. Quando chegamos, bastava chover fraco para alagar. Um enorme descaso. Queremos mostrar que a comunidade unida pode fazer melhor do que o serviço público vem fazendo”, pontua sem deixar claro o que pretendem fazer de melhorias no parque.

Henrique Kanitz-0018Satisfeito com as doações e mobilizações dos simpatizantes da causa, ele explica que os pedidos feitos pelo grupo, como água ou carvão, são rapidamente atendidos, com os suprimentos chegando de maneira rápida e massiva. O fato serve para Jorge acreditar que o movimento tem forte apoio popular.

Para ilustrar seu ponto de vista, usa sua própria experiência: depois de dirigir uma empresa de análise de sistemas durante nove anos, com 40 funcionários, atribuiu a falência à alta carga tributária. “E tem muitas histórias como a minha por aqui”, afirma ele.

Quando o assunto é a saída de Dilma, Jorge é direto. Se dizendo liberal e conservador, afirma que não há como o governo continuar e que, em pouco tempo, a atual administração terá de sair, por meio de renúncia ou pelo processo de impeachment. “Reunimos vários grupos aqui e muitos têm opinião divergente. Mas precisamos unir as forças. Primeiro se derruba a árvore. Depois se pensa em como beneficiá-la”. Para Jorge, a árvore seria o governo e os benefícios as políticas possíveis de articular após a queda, pois defende a manutenção do estado de direito e a convocação de novas eleições.

Nem teria que discutir feminismo. Porque mulher é igual a homem e ponto.

Antônio Gornatti, 46 anos, participa do MLB e do Vem pra Rua e tem uma posição diferente. Liberal declarado, Antônio orgulha-se dos resultados obtidos pelos protestos até aqui. O acampamento tornou-se tão simbólico que 50 cavaleiros do interior irão até a praça saudá-los em breve, com lenços negros de luto pela pátria.

“O protesto da quinta-feira, 16/03 foi o último ao estilo ‘carnaval’. A partir dali, decidimos montar o acampamento e passar a operar daqui”. Além do impeachment, Antônio diz que o movimento pede o fim da corrupção e do roubo por parte dos políticos.

Ele ainda diferencia sua visão do conservadorismo: “Estão acostumados a dizer que todo movimento de direita é conservador. E não é verdade. No liberalismo, nem teria que discutir feminismo, por exemplo. Porque mulher é igual a homem e ponto”. O que mais lhe dá esperança é o despertar do pensamento político nos mais jovens.

“A direita não tem representatividade no espectro político nacional. Nas últimas eleições, só tivemos candidatos de esquerda. Agora tem mais espaço para o liberalismo, e assim, a democracia, que deve contemplar todas as ideologias”. Antônio vai além, dizendo que liberalismo não é só ideologia, mas uma filosofia, pois é difícil condicioná-la entre esquerda e direita.

Falando do Brasil, o manifestante afirma que a esquerda aqui não é legítima, pois mantém-se sem oposição real. Diz que as políticas de esquerda deram certo porque souberam cooptar a juventude. “Os jovens não são a favor de nada, só contra. Eles criaram um inimigo, a direita. E fizeram isso muito bem. Agora a oposição é o povo”.

Defendendo que políticas para LGBT e feminismo não devem ser extremistas, pois cada um deve ter o direito individual que bem entende, Antônio diz que toda a Constituição – um “Frankenstein”, em sua analogia às várias emendas – deve ser revista. O que o aborrece na política é a crise moral e ética, com a corrupção institucionalizada.

Henrique Kanitz-0012Quando questionado sobre Bolsonaro, que diz representar a direita, ele fala que o deputado não o faz “encher os olhos”, trazendo um ponto de vista divergente, mas reacionário demais. E apesar de não enxergar uma legítima esquerda no Brasil, identifica um foco de atenção, “Hoje a esquerda perigosa é o PSOL. O PT nem é mais um partido, estão lá sem ideologia alguma”.


Quando o assunto é impeachment, Antônio não tem dúvidas de que Dilma sairá em breve. Para ele, três opções são viáveis: pelo STF, TSE ou renúncia, que é o que considera que deverá acontecer. “A linha sucessória é horrorosa. Temer, Cunha e toda turma. Mas depois a gente tira eles também. O que importa é conseguir o fim desse governo agora.” Quando o congresso começar a votar, os manifestantes do acampamento prometem ir para Brasília pressionar os deputados.

As instituições clamam pelos militares

Adriano Costa, de 50 anos, do grupo Patriotas de Plantão, pensa de maneira diferente. Autointitulados “intervencionistas”, esses manifestantes defendem que a melhor opção para o futuro do país seria a intervenção militar.

Pastor da igreja Batista Shalom, Adriano foi um dos precursores do acampamento, quando apenas três barracas estavam montadas. Lembrando do sucesso de Bruno e Marrone, conta que, naquela noite, dormiu no banco da praça. Adriano diz que, atualmente, os patriotas vêm brigando contra grupos de comunistas, contra satanistas e contra um certo grupo intitulado Navi, que seriam pagos pelo governo para se infiltrar e dispersar movimentos como o dele (a reportagem não encontrou outras referências a tal grupo). Enfático, Adriano diz que Dilma é uma guerrilheira altamente treinada e que pegar em armas para uma guerra não seria problema para ela. Adriano considera que uma luta armada é inevitável.

Ao falar dos possíveis sucessores à presidente, Adriano afirma que nenhum deles é bom. “Cunha é jardim de infância perto de Renan Calheiros”, compara. Ele reivindica leis rígidas, que coíbam a corrupção, que defendam o cidadão de bem e os bons costumes. Além da volta dos militares à direção do país.

“Militar nunca roubou”, enfatiza Adriano. Para ele, pouco se diferencia entre o PT e o que Nicolás Maduro fez na Venezuela, com o regime bolivariano. Exalta, ainda, Jair Bolsonaro, o deputado federal conhecido pelas suas posições conservadoras, citando uma frase do congressista, que teria dito que a situação do Brasil é grave e preocupante. Segundo Adriano, Bolsonaro tem pena de quem assumir a presidência da república. Defensor do parlamentar, afirma que ele não tem nada de homofóbico, pois contratou um homossexual para trabalhar no gabinete. As críticas que recebe visariam denegrir a imagem de Bolsonaro, “um deputado limpo”.

Quando questionado do porquê de se associar a outros movimentos de oposição, que tem ideias divergentes em vários pontos, Adriano afirma que os Patriotas de Plantão sentiram a necessidade de “se unir para derrubar a árvore”, se alinhando ao discurso da Banda Loka Liberal. Apenas depois da saída da atual presidente é que as ideias entre os grupos poderão ser discutidas com mais mais calma, como a legalização do aborto ou feminismo, tópico que separam a opinião de muitos manifestantes.

Indignado, o pastor fala sobre o que considera ameaça ao Brasil: os novos imigrantes africanos. Senegaleses e nigerianos seriam guerrilheiros treinados por comunistas, sem nenhum interesse em aprender português ou de se tornarem cidadãos brasileiros. Diz que “Dilma botou os guerrilheiros aqui. Agora com as Olimpíadas, as fronteiras estarão abertas. É o que eles mais querem”.

Lembrado da corrupção velada que acontecia na época da ditadura, admite que, infelizmente, sempre houve corrupção, mesmo após afirmar que militar não rouba. As ideologias e leis como o desarmamento, seriam desculpas para disfarçar a roubalheira e desmoralizar o cidadão de bem. “São vários tópicos ligados a um governo mau caráter”, avalia Adriano. Conclui dizendo que o aparelhamento do supremo já está feito e as que as instituições, desacreditadas pela esquerda, clamam pelos militares.

 

A Maidan brasileira termina em chopp

Henrique Kanitz-0080
Ao cair da tarde, quem passa pelo local percebe o deslocamento. A mistura de ideias levanta acampamento e toma a calçada e, quando o semáforo está vermelho, o meio da rua. Apoiados por buzinadas dos motoristas que passam pelo local, manifestantes munidos de bandeiras do Brasil ganham sonoridade nas músicas da Banda Loka Liberal e nas palavras de ordem das reivindicações. O “Chopp Sem Dilma” havia começado, com a proposta de vender dois copos da bebida a R$ 5, que seria o valor da bebida sem o imposto cobrado pelo governo. A Maidan brasileira começava mais uma noite de protesto.

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