Esporte

O Cristo Rei é a minha casa

Família fez do estádio o seu lar: o dia a dia do Aimoré virou a vida dos Haubert

25_04_2016_20_19_35 Gramado do Estádio Cristo Rei é o "pátio" da casa dos Haubert (Foto: Henrique Standt)

Estádio Cristo Rei é a casa do Aimoré desde a década de 1960. (Foto: Henrique Standt)

 

“Podemos conversar amanhã, a partir das 16h. Quando tu chegar, pede pelo meu apelido, que é Piu-Piu. Ninguém me chama pelo meu nome”, diz, por telefone, Cristiano Lírio Haubert, 31 anos.

No dia seguinte, uma sexta-feira deste mês de abril, poucos minutos após o horário marcado, um Escort de cor branca irrompe no pátio do Estádio Cristo Rei, em São Leopoldo. Através da janela do lado do motorista, é possível ver um homem de cabeça raspada. É Cristiano. Ou melhor: é Piu-Piu.

A paixão dele pelo Clube Esportivo Aimoré, dono do Cristo Rei, pode ser dimensionada até na ausência de palavras. No braço esquerdo do torcedor, destapado pela camiseta regata, repousa a tatuagem do escudo da equipe.

“Cara, o que vou te dizer? Eu praticamente nasci no Aimoré”, resume.

 

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Piu-Piu e a avó, dona Alaídes: a paixão pelo Aimoré vem de berço. (Foto: Henrique Standt)

 

Não, a afirmação de Piu-Piu não é um exagero. Tal qual um jogador de futebol polivalente, capaz de cumprir múltiplas funções dentro de campo, ele é um faz-tudo no clube. Além de torcer, Piu-Piu corta a grama do Cristo Rei. Limpa o pátio do estádio. Em dias de jogos, vira maqueiro e gandula. Inclusive, caso necessário, não hesita em esconder a bola para garantir a vitória do time da casa. “É, a gente faz isso, sim”, confirma o torcedor, que não esconde o sorriso e a outra tatuagem em homenagem à equipe: o retrato de um índio — símbolo do clube de São Leopoldo — no braço direito.

Com tamanha identificação junto ao Aimoré, o Cristo Rei é considerado o lar de Piu-Piu. Literalmente. Na companhia de familiares, entre eles a avó e a mãe, o torcedor vive em uma casa sem muito luxo embaixo da arquibancada coberta do estádio, chamada de pavilhão, distante poucos metros do alambrado que separa a torcida do gramado.

A origem da moradia também explica as raízes do fanatismo do torcedor pelo clube. Entre uma e outra tragada no cigarro, escorado em seu Escort, Piu-Piu lembra que a devoção pelo Aimoré vem de berço. Seus avós, Lirio Haubert e Alaídes Haubert, já trabalhavam para a equipe quando os jogos ainda eram realizados na Taba Índia, antiga sede do clube. Com a inauguração do Cristo Rei, em 1961, o casal seguiu a mudança e passou a se hospedar na casa que ainda segue firme, assim como o amor de dona Alaídes pelas cores azul e branca.

“Gosto muito do Aimoré. Tenho 63 anos de clube. Vim de Montenegro para São Leopoldo e, então, conheci o Lírio. A gente ficava se olhando por umas janelas. Quando o Aimoré veio para cá [para o Cristo Rei], ele pediu para fazer umas repartições aqui para nós morarmos”, recorda a avó de Piu-Piu, do alto da lucidez de seus 92 anos.

 

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Dona Alaídes guarda, em casa, homenagem feita a Lírio Haubert. (Foto: Henrique Standt)

 

Ao falar de dona Alaídes, o torcedor a descreve como uma fanática pelo clube, que pede para assistir às partidas perto do campo. Já ao comentar sobre o avô, Piu-Piu ressalta que o perdeu quando ainda era criança: Lírio faleceu na época em que o neto tinha apenas seis anos. “Meu avô foi roupeiro e massagista do Aimoré”, conta o torcedor, enquanto enxuga o suor do rosto.

Sentada ao lado do sofá da casa, dona Alaídes detalha que o marido também exerceu outras tarefas dentro do clube. Dentre elas, a limpeza do estádio e a pintura das linhas do gramado. “E não tinha ninguém para ajudar”, acrescenta.

Enquanto relembra o passado, Alaídes é cumprimentada por funcionários do clube que passam ao lado da porta de sua casa a caminho do campo — “Oi, vó” é uma das saudações corriqueiras. O bom relacionamento com quem vive o dia a dia do Aimoré, segundo ela, vem desde o passado.

Quando trabalhava, dona Alaídes também era a responsável pelo preparo das refeições dos jogadores. Entre eles estava um zagueiro turrão chamado Luiz Felipe Scolari, que chegou ao clube no final da década de 1960. “Uns diziam que ele não jogava nada, só para brincar comigo (risos). O Felipe é um cara muito católico”, comenta a torcedora sobre o então jovem atleta que, sob a alcunha de Felipão, ganharia o pentacampeonato mundial, em 2002, no comando da Seleção Brasileira.

 

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Avó e neto esperam a volta do Aimoré às vitórias. (Foto: Henrique Standt)

 

Ao contrário da avó, Piu-Piu não teve a chance de conviver com Scolari. Seus ídolos são outros. Um deles é o ex-goleiro Rogério Godoy. Além de não se esquecer das qualidades do arqueiro embaixo das traves, o torcedor recorda que foi na época em que Rogério atuou no Aimoré que o nome Cristiano foi substituído pelo apelido Piu-Piu. “Eu era mascote do time, entrava com os jogadores em campo. O apelido surgiu porque eu era magrinho e tinha a cabeça grande. Dizem que foi o Rogério que começou a me chamar assim”, detalha.

Mesmo depois de pendurar as luvas, Rogério não deixou totalmente de lado a profissão. Desde 2012, ele é o preparador de goleiros da equipe principal do Grêmio. Trabalha diariamente com Marcelo Grohe, que é figura confirmada nas últimas convocações da Seleção Brasileira. Entretanto, não apaga da memória a época passada em São Leopoldo, quando convivia com aquele menino magrinho da cabeça encorpada. “Ah, o Cristiano. Eu me lembro dele. Na verdade, foi o grupo inteiro [de jogadores] que começou a chamá-lo de Piu-Piu. Foi ali pelos anos 89, 90”, explica o preparador de goleiros.

Rogério diz ter um “carinho especial” pelo Aimoré por ter iniciado a carreira profissional no clube. Além disso, espera que a equipe ressurja após o fraco desempenho no Campeonato Gaúcho deste ano, no qual terminou com a pior campanha e foi rebaixada para a Divisão de Acesso de 2017.

Assim como o ex-goleiro, dona Alaídes deseja nova ascensão do time para o qual tanto já se dedicou. “Fiquei triste com o rebaixamento”, sublinha a torcedora. O sentimento de infelicidade, no entanto, dura pouco. Em seguida, ela aponta que no dia seguinte haverá um amistoso das categorias de base do Aimoré. E estará apoiando os jovens atletas. “Vou pedir para me levarem ali para o campo [ao lado da arquibancada] para ver o jogo”, promete.

A exemplo da avó, Piu-Piu também acredita em um recomeço. “Não é o fim do mundo”, sentencia. Enquanto pensa no futuro, olha para o gramado do Cristo Rei, que havia sido cortado por ele há poucas horas.

No campo, os juniores treinam sob a batuta do técnico Arílson, que jogou na dupla Gre-Nal e na Seleção Brasileira. São os pés desses jovens que poderão recolocar o Aimoré no rumo das vitórias. O tempo, que fez questão de alicerçar a história de afeto entre os Haubert e o clube, dará a resposta.

 

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Gramado do Estádio Cristo Rei é o “pátio” da casa dos Haubert. (Foto: Henrique Standt)

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